Era um domingo como outro qualquer no sítio onde eu nasci e vivi a maior parte da minha infância. Como todo final de semana, estava acontecendo partidas de futebol no campo ao lado da venda. Meu pai cuidava do time, escalando, distribuindo uniformes, apitando, e resolvendo algumas pendengas entre os contendores. Minha mãe cuidava da venda, que servia basicamente três coisas: pinga, tubaína e cerveja, que era gelada num buraco dentro da venda, cheio de gelo que meu pai comprava na cidade no dia anterior.
Mas aquele domingo foi especial. Tinha chegado um parente da capital, e havia trazido com ele uma câmera fotográfica, muito moderna pra época, com tripé e temporizador. Era uma novidade naquele meio de mato.
Lá pelas tantas da tarde, no intervalo entre um jogo e outro, resolveu-se que iríamos fazer uma foto de toda família pra que ele levasse de lembrança pra São Paulo.
Meu pai, sempre no comando, foi chamando os filhos, os primos, irmãos, os avôs, e fomos sendo enfileirados na beira do gramado, com o campo de futebol ao fundo, algumas vacas e cavalos mais atrás e por fim o cerradão lá no fundão. Era complicado fazer aparecer aquelas setenta pessoas mais ou menos em uma única foto. As crianças foram colocadas em primeiro plano, alguns sentados, outros pequeninos poderiam ficar em pé sem atrapalhar, outros agachados atrás, os mais velhos atrás em pé, para alguns idosos foram providenciadas cadeiras. Todo mundo ali aglomerado, e o fotógrafo da capital, envergando o peso da responsabilidade que lhe fora atribuído, ia dirigindo o posicionamento das pessoas: mais pra cá, mais pra lá, senta aí, levanta, tira a mão do bolso, etc.
Quando todo mundo estava posicionado, ele mexia aqui, mexia ali, esticava uma perna do tripé, olhava pra cima, media o vento com o dedo indicador molhado na boca, e a ansiedade aumentava. Colocava a cara colada na máquina, depois olhava um pouquinho por cima. Então, achando que estava tudo certo, disse o clássico “olha o passarinho”, apertou um botão e correu ao nosso encontro pra poder também aparecer na foto.
Rapaz...
Quando esse homem veio correndo pro nosso lado, foi um deus nos acuda. Meu avô que inicializava a última fila da esquerda pra direita, gritou “virge nossa senhora”, segurou o chapéu sobre a cabeça com uma das mãos e enfiou a cara no meio da quiçaça. Ele começar a correr, foi como atirar uma pedra numa caixa de marimbondos. Todos saíram da formação e começaram a correr como loucos pelo meio do pasto. Crianças foram sendo arrastadas pelos pais, alguns ficaram estirados pelo chão, minha avó perdeu a dentadura, um dos meus tios pulou por entre os fios da cerca de arame farpado e deixou metade da camisa e do couro das costas pra trás.
Todos corriam e olhavam pra trás, e tropeçavam, caiam, levantavam e desatavam a correr novamente. Nessa altura, os cães entraram pelo meio latindo, as vacas e cavalos se espalharam no meio do tropel. Alguns já alcançavam o cerrado e se embrenhavam no meio do mato, e atrás vinha o fotógrafo gritando: pára, pára, pára...
Que parar que nada. Cada um queria salvar a própria pele. Segundos se passaram, o fotógrafo acima do peso com era, não agüentou mais correr, parou no meio do gramado, curvou o corpo, apoiou as mãos nos joelhos e ficou arfando, tentando respirar, ofegante. Os últimos que ainda corriam acabavam de se enfiar no meio do cerrado. Diante da cena do operador da câmera parado no meio do gramado, olhos foram aparecendo entre a vegetação.
Meu pai e meu avô, saindo de trás de uma carroça virada no meio da confusão, deixaram se ver pelo fotógrafo, que injuriadíssimo, gritou para os dois, pedindo uma explicação do que aconteceu.
Meu avô, nordestino que era, gritou lá de trás:
-- “Fio da peste. Se ocê que é o dono desse cabrunco ta com medo, imagina nóis infiliz!!!”
Silvio Santos é Paraguaçuense “véio”,
trabalha no Instituto Florestal e
é cheio de estória pra contar.










