Quem é do interior, já viveu na zona rural, guarda na lembrança acontecimentos pitorescos que são comuns ao estilo de vida simples do sítio.
Os causos na beira de fogão de lenha, as crendices dos mais antigos, as anedotas e rodas de viola, tudo contado com muitos erres no jeito mais caipira de ser.
Algumas histórias acabam se perpetuando através dos contadores de causos caipiras, que povoam a mídia por aí, como foi o caso do Geraldinho Nogueira. Mas provavelmente todas essas histórias tiveram origem em fatos reais, ou bem próximos disso.
Essa história que contarei, não presenciei, mas acredito piamente que ocorreu mais ou menos assim mesmo, ou bem próximo disso, ou quase.
O compadre estava sentado na varanda da casa, ali rodeado pelos vira-latas (desde que li o livro do Monteiro Lobato – Jeca Tatu – não consigo visualizar um caipira sem um vira-lata). Quando aparece na porteira do sítio um conhecido. Entre os dois, entre a varanda e porteira, havia aproximadamente uns 200 metros, um pasto e nele uma vaca, acompanhada de um bezerrinho recém-nascido. Quem é do sítio sabe que vacas com bezerrinhos é bom evitar, porque geralmente elas ficam bravas.
- Tarde Compadre!- Gritou o outro lá da porteira.
- Tarde! Entra aí compadre.
- E essa vaca aí, não pega?
- Pega não, pode entrar.
Diante disso, o recém-chegado, adentrou a propriedade. Caminhou uns 20 metros e reparou que a vaca vinha em sua direção. Apertou o passo, a vaca também, e começou a correr.
A vaca se aproximando perigosamente, e na correria foi deixando pelo caminho as coisas que transportava, debulhando as tralhas pelo chão, perdeu um dos pés da bonita, e a vaca chegando. Nisso os vira-latas já vinham de encontro latindo. Ele já sentia a respiração da vaca na nuca, quando alcançou a cerca de arame farpado do terreiro da casa. Jogou-se por entre os fios, e camisa e pele ficaram para trás.
Caiu já em relativa segurança aos pés do compadre que nisso tinha se levantado por causa do fuá.
Enquanto se levantava, tirando a terra dos zóio, sem couro nas pontas de osso, bradou indignado para o compadre, que assistia a cena impassível:
- Ô Compadre!!! O Senhor não falou que a vaca não pegava?!
Com toda aquela calma peculiar dos caipiras, cigarro no canto da boca, respondeu:
- E pegô?
Silvio Santos é Paraguaçuense “véio”,
trabalha no Instituto Florestal e é cheio de estória pra contar.










