Ainda ontem estava me lembrando da venda que meu pai tinha no sítio Água da Taquara. Venda pra quem não sabe, é um estabelecimento comercial, geralmente na zona rural, que vende de tudo, desde agulha de costura, até gêneros alimentícios e, principalmente, cachaça.
Naquela época, naquele lugar, uma venda era essencial. Mudamos para lá, e meu pai como sempre foi ligado nesse negócio de comércio, principalmente informal (um pequeno eufemismo para dizer “espertão”), imediatamente montou ali na beira da estrada, uma pequena estrutura onde abrigaria a venda. Não seria uma venda qualquer, segundo ele. Seria a melhor do local, mesmo porque, seria a única.
Tudo organizado, limpo, prateleiras cheias, chegara naquela semana uma tia velha da Bahia, que era tida na família como uma cozinheira de “mão-cheia”.
Tudo pronto, ficou marcada a inauguração para um domingo, depois da missa. O povo ali da região, inclusive alguns conhecidos da cidade acabariam comparecendo, o que deixou o meu pai muito feliz, e a minha tia baiana, toda eufórica, disse: "O almoço de inauguração é por minha conta”!
Ela era, não encontrando um adjetivo melhor, imensa. Era forte mesmo. Só a foto ¾ dela pesava uns 5 kg; palitava os dentes com o cabo da vassoura e acendia o cigarro com o maçarico.
Quando foi umas 3 horas da manhã, ela já estava na cozinha. Colocou um macacão de mecânico, pegou umas oito galinhas, e cortou o pescoço com os dentes. As penas, ela tirou assoprando. Esquentou o forno com o bafo. E começou a preparar um rango com jaca de prato principal. Ela pegava uma jaca, fazia um furinho, assoprava e a jaca virava do avesso.
Nessa altura meu pai estava todo entusiasmado. O que ele não sabia, é que ela tinha trazido um vidro de pimenta da Bahia. A pimenta era curtida em óleo de motor.
A pimenta era tão braba, que a chapa do fogão à lenha só tinha duas bocas; ela deu dois pingos de pimenta na chapa, e abriu mais duas bocas no fogão. Era tão braba, que até o fogão ficou com a boca ardendo.
Ela caprichou no almoço; fez bolinho, polenta, frango assado, sopa, arroz, pirão de peixe, e pôs pimenta em tudo.
O primeiro que provou a comida, foi um velhinho desdentado lá que foi logo na sopa. Quando ele colocou a colher na boca, a sopa foi descendo, foi descendo, e furou o acento da cadeira.
Um outro, provou uma azeitoninha; no que ele mordeu, o relógio de pulso adiantou 72 horas e 15 dias no calendário. Chegou embaçar o mostrador. Eu me lembro de tê-lo visto se abanando com uma folha de alface.
O padre que tinha rezado a missa aquele dia, deu uns pingos da pimenta em uns pedaços de polenta; acredite ou não, os pedaços ficaram em pé no prato. No que ele mordeu, as orelhas dele enrolaram igual uma persiana de janela. Ele saiu correndo porta afora, deu uma tremenda topada num pé de santa bárbara que tinha no quintal, que até os botões da batina racharam.
Aquilo era pior que comer brasa de churrasco.
Nisso, chegou o “seo” Luiz, que fazia a linha lá do sítio. Ele pegou uma colher da pimenta, e colocou no tanque da Kombi. O limpador de pára-brisas começou a funcionar instantaneamente e jogar água. O motor fundiu, soltando fogo pelo escapamento.
A pimenta era tão forte, que as galinhas depois de assadas, botaram um ovo cada.
Aí apareceu minha avó, querendo comer alguma coisa. Deram um pedaço de polenta pra ela. Quando a coitadinha mordeu, murchou igual uma bexiga de aniversário. Depois meu pai teve que levá-la no Posto Central para recalibrar a coitada.
Um dos meus tios, já indignado, tacou o vidro de pimenta no rádio. Vocês não têm noção das barbaridades que o locutor falou.
Teve um desavisado que molhou o dedo na pimenta e lambeu. Foi ele fazer isso, e a sola da botina despregou inteirinha.
Há essas alturas, meu pai e tios estavam confabulando, estudando novos palavrões para xingar a tia.
Já havia se formado uma comissão de tios e parentes para tirarem satisfação com a velha. Chegaram lá na cozinha gritando com a coitada. Ela, que estava penteando o cabelo com o rastelo do jardim, não teve dúvidas. Pegou uma garrafa de pinga, e deu na cabeça do primeiro da fila. Saíram três tatuzinhos pela orelha dele.
O segundo da fila, tomou uma panelada tão grande no pé do chifre, que a cueca dele saiu pelo bolso da calça.
Pelo que me lembro, até recentemente meu pai ainda conservava um vidro de pimenta desses. Usava pra tirar calo, verruga, abrir cofre enguiçado, curar gagueira, tirar parafuso enferrujado e desentupir encanamento.
Silvio Santos, jura por tudo, que presenciou isso aí.
Ou talvez ele tava “bêudo” e sonhou. Vai lá se saber...










