A blitz do Zecão



No sítio tinha o Zecão, que depois de muitos anos de trabalho numa fazenda lá, bons trabalhos prestados, diga-se, ganhou do patrão uma Belina 74. Praticamente era só o motor. Mas pra andar ali pelas redondezas era o que bastava.

Um domingo qualquer à tarde, ele resolver que iria pescar numa represa que tinha naquelas bandas, mas para isso, ele precisaria transitar uns 2 km na rodovia. Mesmo assim, ele foi.

Ele e a mulher seguiam pela estrada de terra, e entrando na rodovia, mal percorreram uns 500 metros, eis que um policial rodoviário acena para que parassem.

Era uma descida, ele vinha na banguela e passou que nem um foguete pelo policial. O carro foi diminuindo a velocidade, foi parando, e lá quando ia terminando o declive, finalmente parou.

O guarda olhou para cima, um sol escaldante de dezembro, e de imediato já se arrependeu de tê-lo parado. Caminhou até o carro, que estava uns 300 metros lá pra baixo. Chegou com a farda molhada de suor. Tirou um lenço do bolso, tirou o boné, limpou o suor do rosto e cumprimentou.

- Boa tarde!

- Boa tarde seu guarda! – respondeu eufórico – E aí, tudo bem com o senhor? – E estendeu a mão para cumprimentar.

O guarda percebeu que havia ali uma alegria exagerada, e além do bafo, percebeu a tampinha amarela do litro de 51 atrás do banco.

- Por favor – disse o guarda – a carta.

- Por que seu guarda – respondeu estranhando – Eu fiquei de escrever para o senhor?

- Ai ai – pensou o policial – É hoje. A carta Senhor, o documento que mostra que o senhor sabe dirigir.

- Uai, e o senhor não me viu dirigindo?

- Sim, mas tem que ter um documento. O senhor não tem?

- Óia seu guarda, eu ganhei esse carro do coronel Juvêncio, meu patrão, não é muié? – prosseguiu – e eu não sabia que tinha que ter essa carta não.

- Mas tem que ter.

- Óia seu guarda, eu não tenho não, mas amanhã mesmo eu vou providenciar isso.

- Tudo bem. Me dá os documentos.

O Zecão nem pestanejou. Arrancou o RG do bolso e passou para o policial.

- E os do carro...

- Como assim?

- Os documentos, que provam que o carro é seu.

- Mas o carro é meu, não é muié? Foi o coronel Juvêncio meu patrão que me deu...

- Então não tem documentos?

- Óia seu guarda, se eu falar que tenho eu to mentindo. Mas amanhã a hora que eu for resolver esse trem da carta, eu já vejo isso dos documentos também.

Nisso o policial já estava caminhando em volta do carro, examinando a lata, os pneus carecas, pára-choques amarrados com arame, pediu:

- Acenda os faróis, por favor.

- Tão queimado seu guarda, mas de dia não precisa né?

- Setas têm?

- A esquerda não tem não senhor, e a direita ta queimada...

- Limpador de pára-brisas ta funcionando?

- E por acaso ta chovendo?

Nisso o policial virou-se para a mulher e perguntou:

- Seu marido é sempre engraçadinho assim?

- Não senhor, só quando está bêbado.

- Cadê os cintos de segurança?

- Tão lá atrás amarrando o botijão de gás.

- Freio tem?

- Se tivesse freio eu tinha parado lá atrás a hora que o senhor mandou.

O guarda olhou mais uma vez para cima, pensou, virou-se para o Zecão e disse:

- Olha meu amigo, se eu fosse multar o senhor, nem vendendo essa porcaria o senhor pagaria a multa. Onde está indo?

- To indo ali na represa pescar, fica ali na frente ó...

- Ok! Ok! – respondeu o policial – Vamos fazer o seguinte então: o senhor faz de conta que não me viu, eu faço de conta que não lhe vi, e pode seguir seu rumo. Vaza.

Virou-se para sair, quando foi chamado.

- Seu guarda, ô seu guarda. Faz um favor pra mim? Dá um empurrãozinho aí que ta sem bateria...


Silvio Santos depois disso aí,
sempre anda com a documentação em dia
pra evitar esses contratempos.



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