14/11/2017 - SEM RÓTULOS

'Chico usa vestido': Carol cria o filho sem imposições de gênero


 

 

O que está prestes a ler pode não conversar com você diretamente. Ou pode. Talvez faça sentido apenas em um futuro distante. Ou breve. Se nunca leu algo do tipo, pode sentir um certo estranhamento em um primeiro momento. Se não achar nada de diferente, você é uma pessoa livre de qualquer tipo de estereótipo que a sociedade já lhe tentou impor. Nós estamos falando sobre maternidade livre de papeis de gênero.

Para começo de conversa, é importante saber que há dois gêneros legitimados pelo Estado brasileiro: o masculino e o feminino. Então, nessa percepção, se você nasce com um pênis, é um menino e deve consequentemente gostar de azul e brincar de carrinho. Se nasce com uma vagina, é uma menina e deve curtir rosa, brincar de boneca e casinha. O Estado, contudo, ignora a identidade de gênero, que é a forma como as pessoas se enxergam e enxergam tudo o que lhe é imposto desde a hora do nascimento. A jornalista Carol Patrocínio, de 32 anos, pratica aquilo que chama de “maternidade sem gênero ou amarras”. Basicamente falando, se algum de seus filhos quiser usar vestido, mesmo sendo do sexo masculino, ele pode.

O garotinho da foto acima é o Chico, de 6 anos, filho mais novo da mamãe: “Quando ele tinha três aninhos, pediu seu primeiro vestido. A gente tinha medo de como as pessoas reagiriam e medo de o agredirem de alguma forma. A gente não consegue proteger os filhos o tempo inteiro. Então, vive com o coração na mão”, conta a jornalista, que também é mãe do Lucca.

Para Carol e seu marido, pai de Chico, o fato de o filho ser menino, usar vestidos e brincar de boneca nunca foi um problema, mas para a sociedade parece ser. Isso porque ela não escuta a voz das crianças e não respeita a individualidade de cada um. “A sociedade acha que as crianças são uma massa homogênea sem desejos e gostos, mas a nossa família trata as crianças como seres únicos: com necessidades, gostos, motivações e desejos próprios”, esclarece a mamãe, que ainda completa fazendo um questionamento: “O que choca mais as pessoas é o vestido ou o fato de respeitarmos o que um menino de 6 anos pensa?”.

É claro que, de início, não foi fácil para os pais, principalmente ao ver que o pequeno Chico não seria amplamente aceito do jeitinho que é. O ensinamento é diário. “Contamos a ele que, no padrão da nossa sociedade, meninos não usam vestidos, e ele diz não se importar. Na escola, com relação aos amiguinhos, é a mesma coisa: Chico diz que as pessoas têm que aceitá-lo. As coisas são muito simples para ele“, orgulha-se a mãe, que aprende diariamente com o filho e sua opinião forte.

Se você chegou até aqui e espantou-se com tudo o que leu, talvez ainda dê muita importância para os rótulos – enquanto deveria se importar mais com o conteúdo. O fato de Chico ser uma criança bem resolvida tranquiliza Carol, mas ela sabe que o garoto precisará ser forte. “As pessoas tem que categorizar as coisas para entendê-las. É o método educacional e científico ao qual somos inseridos desde o nosso primeiro dia de vida. Só vamos parar de rotular quando pararmos de sentir medo. E o medo tem ligação com sentir-se ameaçado”, analisa. Para a jornalista, toda vez que alguém vem com sete pedras na mão para criticar a sua atitude com relação ao filho e julgá-lo sem ao menos conhecê-lo, essa pessoa está, na verdade, se aproveitando da situação de outro para exteriorizar seus próprios dilemas. “Espelhamos nossas emoções nos outros e tentamos impor verdades. O mais importante para mim é que ele esteja pronto para se defender sem colocar sua integridade física em risco. O Chico é muito verdadeiro com o que sente e isso é um ensinamento para a vida toda”, desabafa.

Carol Patrocínio ainda acredita que as mães são muito mais cobradas que os pais com relação à maternidade, e justamente por isso recebe mensagens de caras que criticam a forma que escolheu criar os filhos. “Se mulheres já são cobradas de perfeição diariamente, quando se tornam mães, a cobrança aumenta imensamente! Todo mundo aponta seus erros, mas ninguém te dá um abraço e te diz para seguir o seu coração. Eu faço isso. Eu lembro todas as mamães que amar e respeitar os filhos é muito mais importante que receber aplausos da sociedade”, garante a ativista, que não fica brava quando alguém ~culpa~ o feminismo por ela ser quem é e ter suas convicções: “Por ser feminista, acredito que as pessoas devam ser quem elas são, sem ligarem para pressões e papeis sociais. Acredito que todas as pessoas mereçam ser ouvidas e respeitadas. Se não fosse feminista, talvez acreditasse em uma educação autoritária e não respeitasse as singularidades de cada um“.

Chico é uma menino e tem total convicção disso. Então, por que você o julgaria apenas pelo fato de usar uma peça de roupa que a sociedade diz que é feminina ou brincar de bonecas e não de carrinhos? Se nos despirmos de todos os estereótipos que a sociedade continua a nos impôr, um dia, finalmente, conseguiremos que a mensagem abaixo, que a Carol deixa para o Chico de 16 anos ler, seja possível: “Filho, nessa fase da adolescência tudo dói e assusta. A gente sente milhares de emoções que não sabe nem nomear. Aconteceu comigo, com seu pai, seu irmão e vai acontecer com você. O importante é que você saiba que está tudo bem e que você pode contar com cada um de nós para te ajudar a segurar a barra, se sentir acolhido e amado. Sei que agora parecer que ninguém entende o que você está sentindo, mas nesse exato momento tem muitas pessoas sentindo a mesma coisa. Você nunca vai estar sozinho e nosso amor vai sempre te acompanhar. Respira e olha ao redor com calma. Há coisas lindas a se ver! Basta olhar no lugar certo“.

 

Fonte: msn.com


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