Acho estranho o ato de escrever. Longe do teclado tenho mil ideias, vejo histórias, sonho com elas. Roteiros dignos do prêmio da academia. Tramas alucinantes, climas românticos, histórias envolventes. Mas é só me aproximar do micro, e as ideias se esvaem. Fico aqui sentado, olhando para a tela, para o teclado e nada.
O Jô Soares, Millôr, Arnaldo Jabor, Luís Fenando Veríssimo escrevem todo dia sobre tudo e sempre têm assunto. Daí eu me pergunto: Por que eu não consigo escrever sobre nada?
Talvez seja porque esse pessoal aí, todo dia tem acesso a centenas de canais da TV paga, viagens pelo mundo, companhias célebres de outros escritores, pessoas que lhes enviam ideias, e acima de tudo, tempo.
Não, não é isso. Já levei a coisa para o lado pessoal e estou criticando as pessoas que admiro. Mas tem um fundo de verdade. Como eu posso escrever sobre economia, alta da bolsa, elevação da taxa de juros, câmbio flutuante, se a única alta que me preocupa no momento é a alta do preço do álcool, que imagino, possa elevar também o custo da cachaça e consequentemente seus derivados. A única coisa flutuante que me incomoda é quando caminho do bar até minha casa e tenho a impressão de estar flutuando.
Minhas companhias, com as quais me correlaciono, tem basicamente a mesma estrutura que eu, e são acometidos das mesmas preocupações. Variando da alta da cachaça ao rebaixamento do Palmeiras.
Transformei o bar da esquina no meu escritório central. Lá compro, vendo e financio ações, acompanho a alta dos preços e vejo a elevação dos juros (da minha conta, é claro), e não enxergo com bons olhos a taxa de desemprego, já que o número de “serrotes” aumenta proporcionalmente. Pode-se ficar por dentro também da cotação do gado bovino para São Paulo, Paraná, Mato-Grosso e Mato-Grosso do Sul.
Acompanho todo o noticiário local, regional e nacional. Encostado naquele balcão, com uma garrafa na mesa e um copo na mão, me sinto num “cybercafé”. A televisão ligada o tempo todo e no meio do burburinho tradicional desses locais é sempre possível ouvir uma coisinha ou outra. Às vezes, quando o teor alcoólico permite, até sou capaz de distinguir algumas imagens. Os jornais do dia amontoados num canto estão sempre à disposição, assim como as edições anteriores. Nem é preciso ler, sempre chega um expert e comenta uma matéria e assim fica-se informado.
Sem falar que o local é frequentado pelo corpo docente alcoolizado da Faculdade que fica a duas quadras, e as discussões variam de fórmulas de física quântica a sensoriamento remoto. Qualquer dúvida que restou da infância pode ser tirada on line ao vivo, com o corpo de catedráticos pinguços que ali se amontoam. Verdadeiros oráculos de plantão. E em última instância, pode-se recorrer aos universitários.
Ali também se cuida da saúde. Vários frequentadores pertencem ao corpo médico hospitalar da cidade, e sempre se pode tirar uma dúvida sobre aquela dorzinha no fígado, falta de apetite, mal estar de manhã e outras mazelas que acometem os cachaceiros no dia a dia. Diga-se de passagem, que vida de bebum não é fácil. O lugar dispõe de uma ampla gama de fórmulas para-medicinais para tratamento imediato dos adoentados de balcão. Combinações de ervas, raízes, insetos, ofídios, pedaços de pau, sementes, frutas e, evidentemente, cachaça.
A beleza corporal é muito visada na área da academia de esquina. Você chega ao local e sempre tem um para te dizer: “Que barriga em meu!”. “Mano, você está crescendo para os lados...”. “E esse cabelo, o barbeiro está preso?”. Tem ainda a malhação. O banheiro fica relativamente longe, e depois de várias cervejas, o vai-e-vem é constante, e queima-se muita caloria, além do trajeto de ida e volta ao bar propriamente dito.
Lá também fica a bolsa de apostas: “Quer valer "deizão" no timão Domingo?"
Tem o salão de jogos e o caixa-rápido: “Oh Zé, me empresta dez paus? Pago junto na conta.”
Além de tudo, tem o aspecto cultural. Lá você pode presenciar a verdadeira arte contemporânea. Desde shows de humor, shows de mágica, música ao vivo, encenações dramáticas, espetáculos de dança, luta livre, e, desfile de lindas garotas ao cair da tarde, rumo à pista de cooper.
Bom, a conversa está boa, mas tenho que ir. Onde? No bar, é claro.

Silvio Santos escreveu isso dia 24/11/2002, época,
que segundo ele “ainda gostava” de uma “marvada”.
Isso até lembra aquela música do Raul Seixas – Movido a Álcool:
“Veja, um poeta inspirado em Coca-Cola, que poesia mais
estranha ele iria expressar?”










