Sabe o cachorro que fica aprisionado a vida toda no quintal e um dia consegue fugir para a rua? Uma vez fora das cercas que o aprisionaram por tanto tempo, fica sem saber o que fazer; corre de um lado para o outro, late para os veículos, late para os transeuntes, coloca em risco a própria existência.
Mais tarde, cansado e sozinho, começa a temer a solidão, temer prováveis inimigos, e quer mostrar autoconfiança, poder. Então, quando vem alguém em seu auxílio, ele numa mistura de medo e falsa confiança, e por ter perdido o discernimento, morde a mão de quem lhe estendeu.
Então, usando essa linguagem mais metafórica, comum aos catedráticos, mas que implícita uma subjetividade confortadora a quem não tem muito mais o que dizer, eu me encontrava até recentemente, na mesma situação do nosso cachorrinho aí de cima. Perdido, atacando quem passasse na rua, correndo de um lado pro outro, doido pra ser pego no colo, ganhar um carinho, um minuto de atenção onde eu pudesse mostrar os truques de pegar a bolinha e fingir de morto.
De repente vem você, linda, emanando uma luz incrível, que por um minuto cegou os olhos do vira-latinha, e o mesmo, querendo mostrar controle e segurança, te mordeu.
Agora, já cabisbaixo, rabo entre as pernas, sabendo que fez caquinha, pensa dia e noite numa forma de corrigir o erro, seja latindo desesperadamente para você, seja lambendo o ferimento em sua mão.

Silvio Santos, Aula 345: Como parecer bonzinho depois que fez uma lambança imensa.










